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Nervoso Miudinho

blog humorístico (esperemos) sobre tudo e mais frequentemente sobre nada

28
Mar17

Viver uma gravidez de risco #2

nervosomiudinho.blogs.sapo.pt

O primeiro trimestre foi o período de maior angústia, sem dúvida, não sei como o tempo passou, porque foi completamente tingido a preocupação, evitamos praticamente todas as confraternizações de amigos e família. Os sintomas são mais ou menos esperados, mas muito pouco claros, recorri ao amigo Google, e a uma aplicação de telemóvel que foi uma companhia indispensável, o Nurture. Nesta aplicação temos o desenvolvimento do Feto/embrião a cada dia, os sintomas esperados, a sua explicação e muitos testemunhos de várias mulheres, vamos preenchendo o diário com todos os sintomas que vamos sentindo, e préviamente colocamos a nossa história, o que selecciona histórias parecidas com a nossa, acreditem que ajuda muito, pessoas que passaram pelo mesmo. Quanto aos sintomas foi a melhor coisa, quando tinha um sintoma novo que me assustava, não tardava um/dois dias que a aplicação explicava o que era. Para mim, as dores, eram assustadoras, recolhia sempre em repouso absoluto à mínima dor, porque os dois primeiros abortos começaram com dor. (Ainda hoje o faço, na dúvida, repouso maior.) O útero a crescer, a obstipação, e gases causam o mesmo tipo de dor mas não tinha como distinguir entre as dores. A obstipação é um problema real e recorrente a gravidez toda. As dores nas ancas, que me acordavam, normal também, é o crescimento. As dores nas virilhas, como um relâmpago, isso é que assustou mesmo muito,  não imaginam, lá estava na app, dores nos ligamentos que sustentam o útero à parede abdominal, normal também, consequência do crescimento. As náuseas e vómitos, foram bem marcados. Como da terceira gravidez os sintomas pararam ao mesmo tempo que a evolução da gravidez, celebrámos os vómitos. Sério. É isto. Ficava agoniada, vomitava e depois ficava feliz por ter vomitado. Diariamente. Mandava mensagem para ele, todos os dias, vomitei, reposta dele: Yay. Até sentir o bebé, às 16 semanas, era este o meu barómetro de estar tudo bem, muito falível, eu sei, mas era um óptimo placebo. Até que os vómitos começaram a ficar muito agrestes e ficava com medo de estar a fazer demasiada força ou algo no género. 

 

O nosso relacionamento não sofreu com a gravidez de risco, fortaleceu-se (ainda) mais. Eu não posso fazer esforços, portanto é ele que faz praticamente tudo em casa, até a companhia que lhe fazia durante a elaboração do jantar sofreu, as náuseas que sofri impediam completamente cheirar carne e peixe por cozinhar. O que valorizo é a atitude dele, o carinho, porque sacrifícios estamos a fazer os dois, para mim o normal num relacionamento é isto. Quem diria que não poder aspirar quando me apetece me iria custar. Escolhi-o por ele ser assim, não há ajudas, há uma casa para cuidar e somos dois que o fazemos de igual modo porque ambos temos empregos a tempo inteiro. Cada relacionamento funciona à sua maneira, há muitas formas de resultar, mas para mim era impensável uma relacionamento em que eu tratava de tudo da casa e o que ele decidisse fazer era uma "ajuda" e eu ficaria agradecida, ou até tinha muita sorte. Ele anda sobrecarregado, sem dúvida, mas eu também, eu não posso trabalhar nem sair, passo o dia sozinha, ainda que fale com amigos, mas não é o mesmo que sair para trabalhar todos os dias, não posso beber/comer o que me apetece, depois do episódio da urgência até para tomar banho tinha de esperar que ele chegasse a casa. 

14
Fev17

Dia dos namorados

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Acho que já festejámos. Tenho quase a certeza. O que chamar a um dia destes em que adormeci no sofá antes dele chegar de trabalhar e acordei com ele na cozinha a acabar de cozinhar lagosta para mim? Lagosta em manteiga, com batata, espargos,  cogumelos e salada. Se isso não é festejar o amor com uma surpresa, o que é? 

Foi mais ou menos isto com as alterações que ele fez. 

butter-poached-lobster-with-asparagus-and-new-pota

 

17
Jan17

A dois

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Ele com o seu distinto adormecer em 30 segundos sente-se seguro e amado. Eu observo, na escuridão, e reflicto na sorte que tenho. Na facilidade das gargalhadas a dois, no quanto nos divertirmos e quantas horas perdemos a conversar e na quantidade de vezes que pensamos exactamente o mesmo. Ele começa a ressonar. Eu dou-lhe um leve jeito. O ressonar continua em crescendo. Não posso viver assim, isto não é vida, não aturo este homem, já estou aqui há mais de meia hora a tentar adormecer, tarda nada vais é para o sofá sua betoneira desafinada. Segue cotovelada que o acorda enquanto lhe digo em tom tudo menos delico-doce: estás a ressonar. 

03
Jan17

Perda de privilégios

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Com o susto na urgência, e mesmo a grande sorte no meio do azar. E as minhas piadas mesmo sentadinha na cadeira de rodas e feita num oito, o meu público foram quatro médicos. Os gajos riram, as gajas estavam entre o choque e o riso. Bom, depois disso vieram os cuidados redobrados e muitos dias em que me senti uma criança que não faz nada. Ele não me deixava fazer nada sozinha, foi um amor, sempre preocupado.  Mas, há sempre um mas. Não podia levantar-me a meio da noite sozinha sem o acordar para me acompanhar. E a insistência dele em me ajudar quando está acordado transforma-se em persistência para continuar a dormir quando faço o que ele insiste que é acordá-lo. 

- Tens aí água? 

- Sim (modo zombie) 

- dás-me por favor? 

- não.  

Eu já a rir-me, como não? Olha que me levanto, dá-me lá água. Acorda, dá-me e no dia seguinte ri-se como perdido porque não se lembra de nada disto. 

- vou ao WC. 

- shhh, (coisas indecifráveis), vais depois. 

- acendo a luz, e lá desperta e me supervisiona como se fosse uma criancinha.  

Entre a preocupação e o sono, o primeiro round ganha por milhas o soninho e a vontade de continuar a dormir. Podia ser pior. 

03
Nov16

Ele como concorrente do Masterchef

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Quando o conheci, há seis anos, não cozinhava um ovo. Não tinha aprendido e não tinha por hábito cozinhar, vivia com os pais e não tendo necessidade, não tinha curiosidade. Como vivia sozinha, começou a aprender comigo, fazíamos uns pratos lá em minha casa. Quando fomos viver juntos foi importante para ambos que ele aprendesse. E aprendeu. Já fizemos pratos gourmet, beef wellington,  vieiras, entre muitos outros. Às vezes cozinho eu, às vezes ele, a nossa modalidade preferida é cozinharmos os dois juntos enquanto conversamos e rimos. 

Ele no Masterchef: 

Desafio de 60 minutos, todos frenéticos na cozinha, correria para a despensa, electrodomésticos a saltar, facas afiadas, saltear, refogar, grelhar, os molhos, não esquecer os molhos. O tempo a escassear, os últimos preparos ,  escolher o prato, ter a certeza que está tudo cozinhado na perfeição. Acaba o tempo, o alívio na cara de todos, uma última análise crítica, do que falhou e do que poderia estar melhor. E ele? Como se terá safado ele? Ele acabou de colocar o portátil na bancada e seleccionar a receita, e o tempo acaba mesmo quando ele acabou de seleccionar a lista do Spotify para o acompanhar enquanto cozinha. Levanta a cabeça, e percebe que o desafio já terminou...

25
Out16

Não sei se já vos contei

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Daquela vez que queríamos ver star wars, que ele adora trinta vezes mais do que eu. Diz ele confiante e poderoso. Desta vez não adormeço. Vou tomar um café duplo. Marcha para a nespresso e lá vai ele. O que acontece é que eu vejo todos os filmes duas vezes. Ainda dizem que sou impaciente. Ele adormece ali passados uns vinte minutos, meia hora. Seja em que posição for. Da última vez que estávamos a ver outro filme, adormeceu, deitou-se no sofá, e com a sua distinta lata, passados vinte minutos de estar a dormir, pega no comando e tira o som à TV. Acorda, cedissimo ainda, e eu estava a contar qualquer coisa importante do meu trabalho que tinha acabado de saber. Ainda me diz: shhhhhh, estás a gritar, não fales por favor. Que grande lata,  parte dois.  Enfim, voltando aquela vez do star wars.  Entra triunfante na sala, com o seu café.  O filme começa.... Diz ele: estou completamente disperto, desta vez vou ver até ao fim. No fim do filme.. Acorda e diz:, ui nós não vimos nada. Nós quem? Eu gostei muito. Tu... Em mais três vezes sozinho és capaz de chegar ao fim do filme. Esta vida em comum às vezes é uma solidão. Ahahah 

06
Set16

Há dias maus nos relacionamentos

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E hoje ele não acerta uma. Já lhe expliquei centenas de vezes em quatro anos. No ano da graça de 2016 encontro tostas suecas no frigorífico. É isso mesmo. Tostas suecas. Guarda lá o pão, as tortilhas, tudo vai parar ao frigorífico.

Não fui eu. 

É isso, fui eu que comi tostas suecas ontem e as guardei no frio? 

vamos comer salmão? 

Pode ser. 

So há uma embalagem. 

Ainda no domingo, no continente, te disse que tínhamos duas. 

Só temos uma! 

Temos duas. 

Só temos uma, quando gastamos? Tenho ideia de ter gasto, só vejo uma. 

Estava literalmente na frente dele e directamente atrás da primeira embalagem que retirou. 

 

06
Set16

Limites de um relacionamento

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Ora, querido meu companheiro de vida, decidiu acordar-me às 6 da madrugada para me dar recados, que ia correr e não queria ir com chaves, que estivesse atenta para lhe abrir a porta. Já estava desperta com o barulho, mas achei que fosse hora de levantar. Com calma. Sou pessoa que dorme mal. Ele sabe melhor que ninguém. Não são raros os dias só com meia hora de sono profundo. Se acordei com isto,  logo a seguir ouço que são seis e corrida e fiquei a modos que cega.  Balbuciei coisas,  só me lembro de um desaparece. Das duas uma,  amor ainda está a correr a esta hora ou percebeu a mensagem.  Acho fofo que ao fim de quatro anos de vida em comum numa casa ele atente assim contra o próprio bem estar.  Só vos digo isto assim naquela de ficar registado,  no caso de reincidência,  os detectives vão chamar isto de motivo.  

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